Era preciso resistir a tantos argumentos em favor dos competentes Cabernet Sauvignon e Chardonnays, vinhos que construiram a tradição francesa e que foram globalizados pela competência americana e pela persistência australiana. Era preciso resistir a tantos discursos: meus amigos da Confraria do Spac não poderiam subjugar a paixão toscana pelos Sangiovese. Nem a minha paixão, nem a dos italianos que tanto trabalharam pelo lugar ao sol, hoje conquistado.
Conforme a narrativa do enólogo Giampaolo Chiettini, até a década de 50, as Fattorias (fazendas) italianas eram fechadas e em sua grande maioria de propriedade de famílias nobres. As Fattorias eram divididas em Poderi, os quais eram arrendados aos conttadinos que deveriam dividir sua produção agrícola com a nobreza. Nesta época quase não havia comércio: as plantações e a criação de animais eram para consumo próprio. O vinho era um alimento.
No final dos anos 50, houve uma grande modificação estrutural na composição agrária, o sistema de meação foi proibido e o vinho chianti passou a ser largamente comercializado pelos novos proprietários.
Nesta época, o chianti, principal vinho da região da Toscana, centro-norte da Itália, era produzido a partir da vinificação de quatro uvas, as tintas Sangiovese (80%) e Canaiolo e as brancas Trebbiano e Malvasia. Consta que tal composição foi idealizada pelo Barone Bettino Ricasoli que, ciumento de sua bela esposa Anna, recolhia-se em exílio voluntário no Castelo de Brólio experimentando o melhor corte entre as uvas.
No afã de fazer dinheiro fácil, os produtores da época descuidaram-se muito rapidamente da qualidade e o chianti, um dos poucos italianos D.O.C.G.(Denominazione de Origine Controllata e Garantita) logo ficou desqualificado no mercado havendo grande queda de preço.
Por esta razão no início dos anos 70 as Tenute (propriedades) italianas novamente mudaram de mãos.
Os novos proprietários logo lançaram-se ao desafio de reestruturar os meios de produção a fim de produzir vinhos de qualidade. Além das cepas disponíveis, houve também o plantio de uvas tintas de origem francesa como o cabernet sauvignon, o merlot, o syrah, além de outras espécies brancas.
Convictos de sua capacidade, os italianos não se prenderam aos rótulos e batizaram seus novos sangiovese por vino di távola os quais logo alcançaram notoriedade e foram rebatizados pelos apreciadores como super toscani. Este vinho é produzido pelos melhores vinhedos sangioveses, muito mais exigentes em termos de luz, solo, e água que os cabernet sauvignon, ou por cerca de 80 ou 90% da uva sangiovese, com cortes de cabernet sauvignon ou merlot. São envelhecidos quatro anos, dois deles em barricas pequenas de carvalho novo francês ou esloveno. São produzidos nas regiões do chianti clássico ( entre Firenze e Siena) e de Montalcino em pequenas quantidades. Entre seus principais representantes estão o Tignanello, o Ceparello, o Sangioveto, Le Pergole Torte, Fontalloro, etc.
Na revitalização dos vinhos da Toscana, os produtores também empreenderam no resgate do prestígio do chianti. Atualmente o vinho é produzido na grande maioria do chianti clássico exclusivamente por uvas sangiovese selecionadas, permanecendo em tóneis de carvalho por 6 a 8 meses. O resultado é um vinho fresco, frutado, ideal para acompanhar refeições. A região do chianti é dividida em sete subdivisões: além do clássico, temos as regiões Colli Aretini(Arezzo), Colli Fiorentini(Firenze), Colli Senesi(Siena), Colli Pisane(Pisa), Montalbano e Rufina(nordeste de Firenze).
Outro vinho de grande expressão na Toscana é o Brunello di Montalcino. O vinho começou sua história na década de 70 em propriedades que se localizavam ao redor da comuna de Montalcino, ao sul de Siena, a partir de uma variedade das uvas sangiovese, denominada s. grosso ou brunello. Trata-se de um vinho bastante encorpado de teor alcólico alto (em torno de 14 graus), envelhecido 4 ou 5 anos em carvalho e pelo menos um em garrafa.
Com destaque não menos importante, na Toscana temos ainda o D.O.C.G. Vino Nobile di Montepuciano, da região de igual nome, os vinhos de Carmignano(região de Montalbano), Montecarlo(região de Lucca) e os de San Giminiano; além de ótimos spumanti e um vinho de sobremesa tão especialmente bom que foi chamado há quase um milênio de vin santo.
Para aqueles que preferem, também encontramos na região varietais produzidos por cepas francesas de excepcional qualidade como os cabernet sauvignon Sassicaia e Olmaia, o merlot Masseto e o syrah Colezione di Marchi.
Como se vê a Toscana e a Itália têm muita importância na história do vinho. E, ainda que tenham enfrentado alguns problemas no passado, nunca se acomodaram. E fizeram vinhos irresistíveis a qualquer preferência.

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